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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O grande mito das raças no Brasil: repensemos

Pernambucano, sociólogo, ensaísta e escritor, Gilberto Freyre traz constantes recordações de sua mais simbólica obra Casa Grande & Senzala. Neste ano de 2017 completa-se 30 anos desde a morte do autor que teve enorme importância na construção da sociologia moderna brasileira, procurando compreender o que significava ser brasileiro. A noção de uma “democracia de raças” foi inaugurada por Freyre com o intuito de expor o cenário nacional, onde diferentes raças aqui presentes se encontraram e se misturaram para originar a nação brasileira. As relações “harmônicas” entre essas raças divergentes permitiram o Brasil ter a identidade que lhe é digna até o presente momento. Com as raízes na miscigenação e na dita democracia, o sociólogo mostra em seus estudos que ser proveniente deste país antes chamado de Pindorama era uma expressão de democracia racial, isto é, de um regime de igualdade para com diferentes raças. Contudo, Gilberto Freyre não era antropólogo e deixou isso claro quando recebeu críticas sobre a falta de empirismo de seus estudos. Desse modo e sendo o tema do mito das raças algo tão drasticamente e irrevogavelmente contemporâneo, é necessário analisar este conceito de raça mais detalhadamente para enxergar qual democracia está de fato enraizada no Brasil.
É com a licença de todo cidadão e cidadã desta pátria amada que inicio o texto para falar desta temática polêmica. O tema “raça” é criticado, ignorado, estereotipado, desprezado, refutado e privilegiado. Criticado porque o senso comum não define raça como os dicionários fazem ou como os biólogos acadêmicos, cientistas político-sociais e antropólogos pesquisam e provam, desviando assim sua interpretação adequada. Ignorado porque a cada ano deste século XXI a segregação racial permanece como pilar fatorial da nacionalidade brasileira. Estereotipado perante os olhos de futuras mentalidades nacionais, uma vez que o legado deixado é de que vizinho é sempre diferente, ou melhor ou pior que nós. Desprezado e esquecido em sua relevância para a formação de cada indivíduo no âmbito educacional, cultural e identitário. E, por fim, privilegiado àqueles que têm a oportunidade de estudar no ensino fundamental, no ensino médio e no ensino superior teses e livros sobre o quão problemático é a compreensão de tal tema. O acesso à informação no Brasil ainda é pouco democrático.
À princípio, o famoso “mito das raças”, sobretudo no Brasil, procura desvendar, de uma maneira biológica, a “democracia” presente em países miscigenados. O senso comum elucida uma caracterização dos países tropicais e “misturados”, interpretando as diferentes heranças obtidas na raiz do povo daquele território. A palavra “raça”, proveniente do latim ratio, significa, comumente, categorizar algo, abrir novas diretrizes de determinada designação ou encontrar subgrupos para tal descrição. E é assim que começa a confusão: raça é uma categoria de espécie utilizada pela biologia como forma de classificação de qualquer ser vivo. Ademais, os graus de classificação foram se tornando cada vez mais amplos à medida que a ciência categorizava os diferentes seres existentes no planeta que hoje habitamos. O ator da novela, a advogada do seu tio, o vizinho da esquina, o vizinho de porta, o médico da sua avó, a professora do seu filho, o carteiro da sua rua, o atendente da farmácia, o faxineiro do prédio, a babá do seu primo e qualquer outro indivíduo que passe por nós no dia a dia pertence ao mesmo ordenamento científico: reino animal, filo cordados, classe dos mamíferos, ordem dos primatas, família dos hominídeos, gênero Homo e, finalmente, espécie Homo sapiens. O conceito de “raça” na biologia é, portanto, inexistente quando o ponto erguido é a espécie humana, uma vez que não existe nenhuma divisão genética biológica advinda do Homo sapiens, tanto mais evoluída quanto menos evoluída. Todos os continentes do planeta Terra englobando todos os seus respectivos países possuem a mesma espécie Homo sapiens como popularmente vangloriada e chamada de ser humano.
Mas, no decorrer da construção das sociedades, surgiu o termo social utilizado para “raça” que fundamenta o senso comum da determinação de grupos étnicos a partir das características genéticas. Em virtude disso, as nomeadas “raças” rotulam as diferenças entre os seres humanos pela cor da pele, pela característica física ou pela origem social/étnica de cada um. Essa designação pressupõe que existem divergências evolutivas e expressivas entre indivíduos de cores ou origens/nacionalidades distintas. Tal relação e subgrupo da espécie humana é cientificamente equivocada e traz uma abordagem antropológica e sociológica de “raça” como uma corrente do Homo sapiens constantemente refutada. Raça e etnia não são sinônimos. Etnia e grupos étnicos são indivíduos que compartilham, ou não, de uma mesma cultura/religião/língua e até mesmo das características físicas. O termo raça serviria para classificar, biologicamente, subgrupos de uma espécie. E a espécie humana não possui subgrupos. Portanto, a ideia de “raça humana” é um conceito originário de séculos de senso comum que apenas fortificam e endossam o racismo e o preconceito, motivando e perpetuando a imagem de que existem seres superiores e seres inferiores. A comprovação deste abominável princípio humanitário foi verificada tanto na supremacia europeia do imperialismo quanto na aurora mundial que emanou a Alemanha nazista do século XX.
Para além disso, essa abordagem racista ampara a tão orgulhosa e complexa cultura miscigenada.  A palavra “miscigenação” representa a junção de um homem e de uma mulher de diferentes etnias. Contudo, o senso comum classifica o termo “raça” como sendo causador da miscigenação brasileira e oriundo da cor da pele branca, preta ou amarela. O indivíduo mestiço é aquele que nasce pelo cruzamento de duas etnias distintas e não pelo cruzamento de diferentes “raças humanas”, até porque um Homo sapiens com um Homo sapiens sempre originará novos Homo sapiens. No Brasil, o “mito das raças” se desenvolveu ao longo dos anos de colonização até os dias de “redemocratização”. Hoje em dia, permanece a ideia de raças distintas e seres humanos separados por seus ancestrais diversamente genéticos. Assim, em uma terra que um dia foi do pau Brasil hão de existir três raças distintas: o europeu, o africano e o indígena. A mistura delas sustentou e sustenta anos de interpretações falsas sobre os grupos humanos e seus significados sociológicos.
A escravidão, para citar o mais conhecido dos casos abomináveis de racismo na história do Brasil, não precisou de tais justificações para se concretizar no território brasileiro, uma vez que a colonização não foi um momento de equilíbrio de raças, mas sim de superioridade e violência. Então, concorrentemente, a escravidão se construiu em cima de uma discriminação generalizada entre colônias e metrópoles. Não houve a necessidade de reconhecer a diferença de raças evidente, porque o país não era democrático e a escravidão era legal. Artigos científicos que explicavam a hegemonia da “raça” europeia sobre a “raça” africana e indígena vingaram durante séculos e fazem parte da herança não só deste país, como da humanidade toda.  Mas com a procedência de governos imperiais, republicanos, ditatoriais, militares e democráticos, é sabido que a liberdade e a igualdade são direitos para todos os cidadãos, sem qualquer exceção. Com isso, fez-se necessário a interpretação de um Brasil de todos e todas, provando a solidariedade cidadã que agora aqui prestava. Desse modo, a ideia de uma nação de diferentes raças traz o sentimento de aceitação de todos para com o camuflado racismo embolsado de anos.
Nesse século XXI, o Brasil não tem todos os seus cidadãos com seus direitos “conquistados com braço forte” e muito menos um sol da liberdade que brilha para todos em “raios fúlgidos”. O hino nacional não representa a democracia de raças de Gilberto Freyre e nem mesmo a democracia que é garantida na Constituição Federal do país. Como prova disso, nas últimas décadas, a ideia de raça começou a ser relacionada à ideia de multiculturalismo, isto é, ao invés da antiga suposição do gene sendo o fator determinante de cada homem ou mulher sobre sua raça, a cultura agora confiscou esse papel, mesmo ela não sendo a caracterização essencial na vida de cada um. O multiculturalismo é sim importante para o diálogo entre indivíduos e grupos humanos, para o aprimoramento da cidadania em diferentes partes do mundo e para a convivência pacífica de grupos culturais em um mesmo território, sempre em nome da evolução da sociedade. Infelizmente a escravidão diminuiu com o tempo, mas o racismo permaneceu nas consciências.

Por isso e por toda a luta à frente, garanto àqueles que defendem uma cor da pele como determinante genético de um ser humano que a ciência jamais justificará o preconceito. 

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